A educação liberta

O ano era 1979 e o lugar era Coronel Fabriciano (MG). Aos sete anos de idade, Rita Eulália entrou pela primeira vez em uma sala de aula. Seus olhos curiosos passearam entre as carteiras, se derramaram na lousa e brilharam diante de todo conhecimento que lhe aguardava. Ela não sabia, mas a partir daquele momento sua vida mudaria para sempre. Era o começo de um futuro. 

Houve um tempo em que as meninas não frequentavam escolas. Estudar era um privilégio restrito ao sexo masculino. Portanto, além de ser o começo de um futuro, a primeira vez de Rita como estudante em uma sala de aula era também um rompimento com o passado.

No presente, ainda há ecos desse passado, infelizmente. No mundo, 62 milhões de meninas carecem de educação, conforme informação da Unesco divulgada em 2017. Apenas 40% dos países conseguiram alcançar uma paridade no que tange ao acesso à educação entre homens e mulheres. Esses dados revelam que, embora tenhamos avançado como sociedade, ainda há um longo caminho pela frente. Damos um passo adiante toda vez que uma menina como Rita pisa em uma escola, abre um livro, ergue a mão para tirar alguma dúvida durante a aula, escreve suas primeiras palavras em letras que desabrocham sobre o papel.

Todavia, como tudo que desabrocha, Rita também enfrentou espinhos. A distância entre sua casa e escola era grande. Todos os dias, a menina de cabelo cacheado e pernas fortes fazia um longo trajeto a pé. Era tudo muito cansativo e escasso. 

Além disso, ela sentiu muitas dificuldades de aprendizagem em seu primeiro ano letivo. Isso lhe deixava desmotivada e triste para acordar todos os dias e estudar. Como consequência, precisou cursar a primeira série do ensino fundamental uma vez mais. 

As coisas começaram a mudar quando Rita conheceu uma professora de cabelos brancos e voz calma que passou a lhe dar aulas. Com ela, descobriu que aprender era  prazeroso e ensinar era doce.  Todos os dias, Rita fazia questão de sentar entre as primeiras carteiras para ficar pertinho da professora tão querida. Nesse ano, desabrochou ainda mais e passou para a segunda série do ensino fundamental. 

Nos anos seguintes, Rita oscilou entre desabrochar e murchar. Encontrou professores que lhe animavam e outros que lhe desmotivavam. Entre passos progressivos e regressivos, parou de caminhar após o ensino fundamental. Deixou a escola. 

Mais para frente, mudou-se para Vila Velha (ES) e lá sua irmã começou a lhe incentivar para que voltasse aos estudos. Mesmo casada e com um filho pequeno, retornou à escola para concluir o ensino médio e fazer magistério, provando então que nunca é tarde para que uma mulher empodere a si mesma. 

Quando foi procurar emprego na área da educação, um contratante pediu que Rita se matriculasse em uma faculdade. Ela não hesitou. Relembra que este pedido não foi feito com ironia, mas expressando uma necessidade que o local tinha de profissionais qualificados na área escolhida por ela. Foi assim que Rita optou pela pedagogia e certamente sua professora da primeira série sorriria de um jeito tão doce quanto sua voz, ao saber que a aluna se tornaria o que ela um dia foi. 

Entre a menina de sete anos que entrou pela primeira vez em uma escola e a mulher que hoje dá aulas, há muitos anos e muitas descobertas. Descobriu, sobretudo, que a educação liberta de realidades opressoras. Hoje, Rita é independente, forte, livre e libertadora. Por assim ser, rompe mais uma vez com o passado, seu e de tantas outras que a antecederam. Ela comenta que colocou todo o esforço possível para que seus dois filhos também entendessem, valorizassem e tivessem acesso à educação, enquanto instrumento capaz de mudar o mundo de um indivíduo. 

Parte desta mudança também se reflete no fato de nossa personagem escolher trabalhar com educação inclusiva. Há alguns anos tem se dedicado à prática educacional direcionada a alunos especiais nas salas de aula das escolas. Sempre paciente, amorosa, sempre persistente, entregando a outros o mesmo incentivo que recebeu daquela primeira professora. A que a ensinou o prazer do aprendizado.

Quanto ao futuro, sabemos que ainda há 62 milhões de meninas para educar e libertar. A história de Rita inspira a regar histórias que estão prestes a desabrochar. Muitas crianças podem florescer, a partir do momento que tiverem acesso ao ensino. 

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